sábado, 22 de setembro de 2012

Tempo




"Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!"

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Coimbra Editora, Lda.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Servidão Humana, Somerset Maugahm - Opinião



Sinopse:

Servidão Humana é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham. Esta narrativa clássica de entrada na idade adulta conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre.  


Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.




Opinião:


Servidão Humana é, para mim, um romance sobre o ser humano, aquele que pensa a sua existência. Debruça-se pela viagem diária, o mais das vezes tortuosa, do indivíduo que procura um modelo pelo qual reger o seu comportamento e justificar tanto a sua conduta geral como as suas acções particulares.

Philip Carey, é um jovem que nasce com uma deficiência física e logo fica órfão. Criado pelo o seu tio e padrinho, vigário de Blackstable, irá iniciar uma longa e dolorosa peregrinação que nos levará consigo ao longo do seu desenvolvimento físico e emocional. A sua deformidade em muito lhe irá dificultar a vida. Servirá de molde "deformador" de carácter, mas devido a ela irá adquirir o poder da introspecção através da qual desenvolverá a sua intensa apreciação da beleza, a sua paixão pela arte e pela literatura, e o seu interesse pelo espectáculo da vida.
O ridículo e o desprezo de que foi vítima levam-no a fechar-se sobre si mesmo mas, nas palavras do próprio autor, fazendo desabrochar aquelas flores que jamais perdem a fragrância.

A normalidade é a coisa mais rara do mundo, todavia para chegar a esta magnífica conclusão este jovem vê goradas as elevadas expectativas com que inicia o seu crescimento, sofre com as limitações que o seu corpo lhe impõe, com o desamparo e falta de afecto com que que tem de crescer.

Terminei ontem a leitura da obra-prima deste aclamado escritor. Antes de iniciar a jornada obtive as melhores opiniões sobre este romance, pelo que as expectativas eram elevadas. 
Devo dizer que gostei bastante da escrita, da história, da capacidade para descrever o ser humano que o autor demonstra e até dos nervos que o personagem principal, Philip, me fazia sentir com o seu comportamento tão inocente. Um herói rico e denso que certamente possui alguma faceta com a qual qualquer leitor logo de identifica.
Em várias páginas, sobretudo no final, encontrei um "quê" de Queiroz que muito me agradou.

Um livro excelente e um autor a voltar.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sunrise



Olá a todos.
Após quase seis meses de "coma cerebral auto-infligido" através do qual recuperei uma sanidade mental que me sentia estar a fugir, eis que me encontro de volta.

A todos os que em vão persistiram nas visitas ao blogue as minhas desculpas e o meu agradecimento.

Por estes dias voltei às habituais leituras. Continuo a saborear o paciente "Servidão Humana" e estou a gostar bastante. No final podem contar com a minha, como sempre, muito modesta e muito pessoal apreciação.

Depois do falecimento do meu avô, em Fevereiro, passei por uma fase profissional muito desgastante. Senti-me sem energias que não para as essenciais obrigações de existência.
Mantenho o emprego e este continua a ser um amargo excremento com o qual me unto com o meretrício propósito de ganhar o dinheiro indispensável à subsistência familiar.
Adquiri, todavia, capacidade de lidar com isso como "gente crescida".

Não posso garantir a mesma periodicidade de publicações que até este interlúdio vos habituei. Um dos aspectos que me fez necessitar de uma pausa também da leitura foi o cansaço da obrigação que sentia em devorar livros rapidamente para poder partilhar e discutir convosco a minha opinião. Foi um erro que me separou do prazer e até da imperiosa necessidade de ler que toda a vida senti.
Sempre li para viver mas estava a viver para ler e comentar.
Não voltarei a ler com sofreguidão descabida mas apenas com aquela que o ritmo e tempo próprios do livro me induzirem.

Prometo actualizar o blogue com regularidade e, se me concederem o direito de pedir o que quer que seja, gostaria de continuar a contar com as vossas opiniões, comentários, críticas.

Até já.