quinta-feira, 28 de março de 2013

Incendiário, Chris Cleave - Opinião



Sinopse:
Entre as vítimas de um atentado terrorista ocorrido durante um jogo de futebol em Londres, estão o marido e o filho da mulher que, destroçada, escreve agora uma carta a Osama bin Laden. Num tom simultaneamente emotivo, lúcido, magoado e chocantemente humorístico, ela tenta convencer Osama a abandonar a sua campanha de terror, revelando a infinita tristeza e o coração despedaçado de quem, no fundo, é apenas mais uma das suas vítimas. Mas o atentado é apenas o começo. Enquanto medidas de segurança transformam Londres num território virtualmente ocupado, a narradora também se encontra sob cerco. De início, ela recupera forças ajudando no esforço antiterrorista. Mas quando se envolve com um casal de classe alta, dá por si a ser gradualmente arrastada para uma teia psicológica de culpa, ambição e cinismo, que corrói a sua fé na sociedade que defende. E quando uma nova ameaça de bomba atira a cidade para mais uma vaga de pânico, ela vê-se forçada a actos de profundo desespero …Mas reside aí, talvez, a sua única hipótese de sobrevivência.
Um romance assombroso. O melhor romance que já se escreveu sobre o terrorismo.


Opinião:
Incendiário é um livro sobre vários temas. Com o terrorismo como pano de fundo, Cleave aborda as relações humanas, as clivagens sociais, a perda, o sexo, o sofrimento e a loucura que todos temos adormecida no nosso interior à espera de uma faísca que lhe sirva de ignição. É um romance é uma comédia pintada de negro sobre uma sociedade pressionada ao limite tendo o terror como alavanca.

Sendo este o segundo livro que leio do autor, trata-se do primeiro romance que ele escreveu.
A minha avaliação divide-se entre o muito bom e o mediano.

A obra está dividida em quatro partes: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Na minha perspectiva o ambiente da narrativa é influenciado pela respectiva estação do ano, da mesma forma que as estações influenciam as pessoas e este é um livro que explora o comportamento humano. Cleave tem, aliás, formação em Psicologia Experimental e essa circunstância fornece-lhe atributos que o autor muito bem sabe explorar nos livros que escreve.

Pareceu-me que a primeira metade da obra está muito bem conseguida, Cleave caracteriza muito bem as personagens, atribui-lhes personalidade e coerência. Nem sempre consegui justificar, à luz da minha experiência, alguns comportamentos que li, mas o autor sabia o que queria e para onde me desejava levar. Lá fui com ele e gostei da viagem.

A segunda metade deste Incendiário, ou talvez tenha sido o último terço, não sei, não me pareceu tão bem esgalhado. A páginas tantas dei por mim a pensar:
- Foda-se mas o gajo sabe o que raio quer fazer desta história?!
E a resposta foi...  Hã... Deu-lhe um jeito.

Penso que, enquanto desenvolvia o enredo, o escritor foi grandioso, todavia quando o quis concluir fiquei com a sensação que não sabia muito bem o rumo que dar à história.

Analisar a leitura de uma perspectiva filosófica levar-me-ia a afirmar que a exploração da condição humana pressionada ao limite nos leva ao coiso e tal...
Como normalmente a base da minha análise se prende com o prazer que sinto, digo simplesmente que gostei muito de metade, assim-assim de um terço, e muito pouco de dois sextos.

Já agora, relativamente à tradução tenho algo a acrescentar.
O livro não tem uma vírgula. Uma só. A narradora, afirma por uma vez, na sua longa missiva a Osama Bin Laden que é este livro, que não sabe escrever muito bem. A Terence ela diz que não sabe usar as vírgulas, quando este acaba por lhe oferecer trabalho. Não conheço o texto original. Se por acaso a não utilização de vírgulas foi obra do autor devo aplaudir o trabalho de tradução por se manter fiel ao original.
Mas, porém, todavia, contudo... a leitura de um livro inteiro sem este tão "piqueno" mas fundamental sinal de pontuação torna-se um frete. Por inúmeras vezes tive de voltar atrás no texto para separar as orações e conseguir assimilar o conteúdo na íntegra.
Seja, pois, demasiado voluntarismo por parte de Cleave, seja demasiada parvalheira da senhora tradutora o certo é que não gostei.

Falando, neste caso escrevendo, para a senhora  Isabel Alves, a tal da tradução, aqui fica uma lição de português (e aproveite porque esta é de borla):

"Antes DE  MAIS devo dizer que V.Exa. erra DEMAIS".
Consegue perceber a diferença na utilização??

É que já chateia, mas chateia-me à brava, (e agora dirijo-me ao enxame todo) tantos livros em que as ilustríssimas intelectualidades que fazem as eloquentíssimas traduções... não sabem escrever Português.

Pronto. Já está.

Boas leituras.

12 comentários:

Paula disse...

Parece que este já não tem nada a ver com a paixão da leitura de "Pequena Abelha"
:(

André Nuno disse...

Olá Paula.
O livro não é, de todo, mau. Trata-se até de uma obra premiada. A primeira metade agradou-me bastante, a segunda não foi nada do outro mundo mas não foi má. A questão é, pareceu-me, que o rumo definido se perdeu um pouco. Não tem um final grandioso. Dito isto concordo que a Pequena Abelha é bem melhor.
Boas leituras!

nuno chaves disse...

Ainda não li nada de Chris Cleave, tenho ouvido falar muito bem de "A pequena Abelha"
Mas tenho lido várias impressões muito semelhantes à tua, o que me leva a ficar com alguma renitência na leitura, talvez leia se alguém o tiver, ou então vou mesmo requisitá-lo na biblioteca.

André Nuno disse...

Nuno,
Pequena Abelha é um livro muito interessante. Penso que irias gostar de o ler. Este Incendiário não é um mau livro, antes pelo contrário. Penso que Cleave tem uma óptima escrita.
Abraço.

Patrícia disse...

Eu adorei o "A pequena Abelha" e fiquei com vontade de ler este livrpo. Agora, depois de saber que é um livro sem virgulas, deixei de ter assim tanta vontade de o ler. Ando sem grande paciência para a escrita "criativa" de certos escritores (deve ser porque o valter hugo mãe anda a dar comigo em doida) :)

André Nuno disse...

Patrícia,
acabas por habituar-te à ausência delas mas é custoso e penso que o esforço não compensa a ideia do autor...
Nunca li Valter Hugo. Sempre que peguei num livro dele nunca consegui comprá-lo. Não me agradou. Quando vejo as entrevistas que o senhor dá tão pouco fico com vontade de o ler... Não me parece que algum dia me "dê ao trabalho" sequer de tentar... :D

Patrícia disse...

Não descartes o vhm. Eu adorei o "A máquina de fazer espanhóis". O "O remorso de Baltazar Serapião" é que me está a lixar a vida :)

André Nuno disse...

Não sei, Patrícia...
Talvez se voltar a ler García Marquez e gostar... dê uma oportunidade ao VHM. :D

Patrícia disse...

Bem, eu gosto de García Marquez. Já leste o "notícias de um sequestro"? Ou o "Crónica de uma morte anunciada"? Acho que não têm os "defeitos" que atribuis ao "cem anos de solidão". Pessoalmente gostei bastante do "cem anos de solidão" mas nem toda a gente pode gostar do mesmo, certo?
:)

André Nuno disse...

Certo. :)
Depois de Cem Anos de Solidão nunca mais li nada do autor. Até admito voltar um dia a GGM mas para já tenho muitos livros que quero ler e estão "em primeiro lugar". Talvez um dia.
:D

EfeitoCris disse...

Hum... VHM e GGM...
VHM - Filho de mil homens... só posso dizer UAUuauauaua
;)
GGM - tenho mesmo de voltar a ele, aliás quero - tenho como objectivo ler Prémios Nobel da Literatura, mas todas as escolhas têm sido difíceis.

Tal como esta a ser «O Colecionador de Mundos» de Trojanow, 130/140 pág... que foram uma dureza - agora vieram 70 muito boas. Cheguei à Arábia, sem sair do Algarve, quem sabe se chego a áfrica antes do términus do fds grande ;)
BOAS LEITURAS!!!

André Nuno disse...

Cris,
VHM e GGM não digo nunca mais... Mas vou dizendo "fica para mais tarde" :)

Esse livro que mencionas nunca li. Por vezes surgem uns "sacanas" que nos fazem sofrer mas depois lá nos compensam. :)

Boas leituras e boas viagens!!!