terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Meridiano de Sangue, Cormac McCarthy



Sinopse:
"Meridiano de Sangue baseia-se em acontecimentos históricos ocorridos na fronteira entre os EUA e o México em meados do séc. XIX. O autor subverte as convenções do romance e a mitologia do «Oeste Selvagem» para narrar a violência da expansão americana, através da personagem do juiz Holden, que nunca dorme, gosta de dançar, viola crianças dos dois sexos e afirma que não há-de morrer."


Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste foi um livro com o qual tive uma relação problemática. Trata-se de um relato num determinado enquadramento histórico com a marca muito própria de McCarthy. O romance está repleto de violência e morte, suportados por um enredo sem dúvida rico mas com uma cadência muito lenta. Cormac demora-se no enriquecimento descritivo da paisagem, da atmosfera que envolve e domina os personagens de tal modo exaustivo que, para quem deseje ler o desenrolar cadente de mais alguma coisa que não apenas cinquenta e duas descrições diferentes do vermelho do sangue, se torna um pouco enfadonho.
Este enfado assombrou-me até muito tarde na obra e só com uma alteração do que esperava do livro, com um novo olhar sobre o que estava a ler, acabei por ter muito prazer na recta final da leitura.

O que acontece é que Meridiano de Sangue é um relato para ser degustado com requisitos primordiais dos quais não me muni atempadamente.
As descrições elaboradas que me enfastiaram até determinado ponto deveriam ter sido abordadas por mim com olhos de quem vê e não com os de quem lê.
Esta obra é uma riquíssima pintura e deve ser apreciada como tal. É um excelente exercício de escrita e deve ser saboreado como tal. É um ensaio sobre o sofrimento, o isolamento, a morte - a treva, numa palavra - e deve ser absorvido com essa cadência própria.

Gosto de enfrentar um romance destemidamente. Prefiro não saber nada sobre o livro e muito pouco sobre o autor.
Neste caso, sobre o qual vos relato, a introdução do tradutor teria sido bastante esclarecedora se fosse do meu desígnio lê-la antes e não no fim.
Esta opção, que normalmente sempre tomo, levou-me a percorrer o deserto com o mapa no bolso, determinado em encontrar a saída por meios próprios não obstante poder fazê-lo de forma mais simples.
Quando o deserto terminou e olhei o mapa vi que escolhi o mais duro trilho. Observei os apontamentos que alguém fez e só no fim da travessia recordei tudo estava ao meu alcance, tudo o que olhei mas no fim de contas não vi.

Se fosse hoje... nada mudaria.

Foi muito interessante perceber a qualidade desta obra de chofre. Sem rodeios. Toda de uma vez.

Para quem se achar capaz de "ler demoradamente" esta pintura lanço o desafio.

Um bom livro.





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A Vida de Pi, Yann Martel



A Vida de Pi de Yann Martel é um livro muitíssimo interessante.
Dividido em três partes, trata-se da história maravilhosa de Piscine Molitor Patel.

Na primeira parte desta obra, o autor retrata o nosso herói, a sua infância, família, História, a sua, chamemos-lhe diferente, fé. Pi é simultaneamente Hindu, Cristão e Muçulmano. Não encontra nenhuma contradição nesta profissão de fé tripartida. Apenas um forte elo de ligação: o seu amor por Deus.  Basicamente define-se e dá-se substância ao Pissinha.
Lança-se luz até à emigração de Pi Patel e da sua família para o Canadá.
Fui levado a pensar que este romance se deteria demasiado sobre a religião. Aliás o autor refere tratar-se de uma história que nos fará acreditar em Deus.

Fiquei desconfiado.

Na segunda parte do romance, somos levados em viagem através do Pacífico com Pi e um tigre de bengala num bote salva vidas. Únicos sobreviventes não efémeros do naufrágio do Tsimtsum, a embarcação que os levaria a todos (Pi, família e animais do seu Zoo) para Winnipeg.
Viajamos durante sete meses com estes dois companheiros numa história maravilhosa cheia de tribulações da pior espécie. Força-se a vida ao seu limite, que fica para além do limite da própria humanidade. Sentimos cada brisa e cada vaga que abana o destino de Pi e de Richard Parker, (o seu tigre de bengala) como se do nosso fim se tratasse.
Avançamos ao sabor da corrente até ao México, passando de caminho por uma inacreditável ilha flutuante.
O tema religião teve aqui uma expressão, aparentemente, ténue, mínima.

Fiquei muito satisfeito.

Na terceira e última parte da obra acompanhamos os representantes da empresa responsável pelo Tsimtsum numa entrevista a Pi Patel para apurar factos e determinar responsabilidades. Piscine a estes relata a sua história, deixando os japoneses extremamente incrédulos e desconfiados.
Pressionado, Pi conta então uma outra versão da sua provação sem animais no relato. Uma versão crua, horripilante e dolorosa. Uma história sem fermento... e muito sangue.
Para cada animal da primeira história há um humano que lhe ocupa o lugar e também a sorte.
Com exceção de um.

Qual a história verdadeira fica ao critério de cada um.
Uma é a alegoria da outra.
Alguma delas será falsa?
Já fiz a minha escolha.
Pi fez a sua porque Deus tem preferência no assunto.

Estamos, pois, perante uma obra maravilhosa, rica e muito interessante.
Yann Martel escreveu um livro soberbo.

Fiquei maravilhado!



Pequena Abelha, Chris Cleave



Pequena Abelha de Chris Cleave é um excelente livro com um título péssimo.
Personagem principal: Abelhinha.
Título original: The Other Hand.
Não vislumbro qual a lógica desta escolha, porventura será uma insuficiência da minha parte.

Com exceção do título este é, para mim, um livro muito bom.
Trata-se da história de Abelhinha, uma refugiada nigeriana em Inglaterra. Com uma infância de horror e sofrimento consegue escapar do seu país e chega a terras de Sua Magestade... onde é presa por dois anos. Com a ajuda de uma jamaicana consegue escapar da interessante visão de integração de refugiados (que quase sempre desagua em deportação no fim da prisão) acabando por procurar refúgio junto de um casal que conheceu no seu país natal, num determinado dia em que ocorreu um episódio absolutamente determinante para todo o romance.
Com meia dúzia de personagens muito ricas e muito icónicas, Cleave consegue abranger de uma forma muito interessante toda a sociedade atual. Passa pela História da Nigéria e pelas histórias que dão corpo à nossa organização societária.
Retrata com muita exatidão o mundo de Abelhinha, o de Martha, o de Charlie, de Andrew, e Lawrence.
Somos levados a refletir sobre diversas questões importantes que pesam na sociedade como o que leva alguém a fugir do seu país, o sofrimento, a dor, as cicatrizes que ficam, de que forma o mundo "desenvolvido" os recebe, como os trata, de que modo se relaciona com os países que lhes são origem, alerta-se para a circunstância de que de certo modo, os países desenvolvidos são justamente motivadores e encorajadores de atrocidades no mundo em desenvolvimento (leia-se países muito pobres) maltratando e humilhando depois o fruto da sua própria política. Aborda-se a xenofobia, o racismo. Versa-se sobre a conduta humana deliciosa e despudoradamente.
Existem dois jornalistas, um político, uma jovem brilhante, um jovem carente e incompreendido, dois amantes, um suicídio, uma violação, uma auto-mutilação, amor, sexo, raiva, terror, morte, sofrimento e esperança.
Tudo isto nesta mão cheia de gente que vai desfilando diante dos nossos olhos.
É uma obra que nos faz pensar e refletir sem, todavia, nos forçar a nada. Somos gentilmente levados a ponderar sobre questões tão importantes sem que nos empurrem. Não nos determinam hora nem ponto de chegada.
Tudo na vida tem um fim.
Havendo chegado ao fim deste livro sinto-me bastante satisfeito por ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho deste autor que espero explorar mais.
Aconselho sem reservas esta fantástica obra.


sábado, 12 de janeiro de 2013

1Q84




















Haruki Murakami é um dos meus autores favoritos. Os seus livros são fenomenais. O autor tem a capacidade de criar mundos que nos absorvem e prendem da primeira à última página.

Seria de esperar que me fosse fácil falar desta obra extraordinária de um autor que tanto prazer me dá, todavia, nada disso acontece. É  para mim extremamente difícil colocar em palavras algo sobre os livros de Murakami. Porquê?
Porque o sentimento e o prazer que sinto ao lê-los são absolutamente descomunais. Quaisquer palavras que escolha, por mais eloquente que seja, ficam aquém do que realmente quero dizer.

As palavras não têm força suficiente no seu significado para descrever a escrita de Murakami porque a sua grandiosidade suplanta o valor individual de cada palavra.

Se digo fenomenal, não chega.
Se digo extraordinário, é pouco.
Perfeito? A perfeição não existe porque ainda não a encontrei.

1Q84 é um romance sobre Tengo e Aomame que se passa em 1984 e 1Q84.
No céu por vezes há duas luas.

Se quiserem saber mais façam o favor de ler.

Por mim não vão saber mais nada.

Deixo-vos aqui e aqui algo sobre esta obra, para que não digam que saem de mãos a abanar.

Bem hajam!


David Copperfield



A pedido de inúmeras famílias aqui vos deixo as impressões gerais que este grande livro me deixou.

David Copperfield é um jovem que nasce a uma sexta-feira. O seu pai havia morrido seis meses antes. A obra de Dickens relata-nos a vida deste Copperfield desde o seu nascimento até aos seus dias de gente adulta.
O jovem David conhece muitas contrariedades e sofrimento ao longo dos seus verdes anos. Foi, para mim, por vezes penoso partilhar deste infortúnio. Das vitórias que surgem de permeio vamos tendo as nossas compensações e agradáveis "vinganças".
Para sobreviver agarrava-se a uma criada que o amava como mãe e, claro está, aos livros que devorava no isolamento do seu quarto.
Ao longo desta grande e fantástica obra seguiremos de braço dado com David, Peggoty e outras personagens das quais nada direi para não tirar a ninguém o prazer que tive em conhecer algumas, a surpresa de outras e a enorme raiva (quase ódio) por mais algumas.
Como na vida, e porque sobre uma vida estamos a ler, encontramos em David Copperfield tudo aquilo que nos apimenta a existência. Amizade, companheirismo, amor, humor, inocência, tristeza, revolta, prazer, raiva, indignação, e claro... alguma dor.

Como David, Charles Dickens nasceu a uma sexta-feira. Como David, Charles teve de muito jovem trabalhar. Como David, Charles terá muito que contar sobre a sua própria vida. David Copperfield, afirmam alguns, foi um dos meios escolhidos para o efeito sendo este romance um livro extremamente auto-biográfico.

O balanço final é muito positivo. O da vida deste Dickens que se chama Copperfield, o leitor que tem o privilégio de através do segundo conhecer muito da história do primeiro retirando, pelo menos no meu caso, um enorme prazer ao longo da viagem.

Não posso afirmar, contudo, desejo de voltar a este autor tão cedo.
Não porque não tenha gostado mas precisamente porque adorei. Foi intenso e aprazível.
Oliver Twist poderá ser uma leitura na minha vida... mas mais tarde.

Sinopse e algo sobre o autor.

Bem hajam.

O Caderno de Maya



Este foi o meu primeiro contacto com a escrita de Isabel Allende. Escolhi este livro um pouco por acaso, numa tarde de compras em que a capa me chamou a atenção e a sinopse me agradou. No meio dos brócolos e do pão de forma Pingo Doce lá veio este caderno.

A obra trata da vida de Maya, uma jovem problemática que se perde nos caminhos da vida. É obrigada a fugir para nenhures. E nessa terreola chilena para onde se vê obrigada a fugir descobre-se, purga-se, cresce e amadurece num curto espaço de tempo.
Deste fim do mundo é-nos relatado o percurso que até ali trouxe a jovem. A história dos seus avós, que praticamente a criaram, do seu ausente pai, da mulher que a pôs neste mundo sem nunca verdadeiramente ter desempenhado o papel de mãe, do homem que a acolhe no seu desterro. Enquadrando o que fez com que Maya se perdesse na vida, Allende relata-nos quão profunda e quase irrecuperável foi essa perda.
No meio de tudo isto, não falta, inexoravelmente, a História do próprio Chile e a perspectiva de como esta afectou a vida dos chilenos no geral e daqueles que fazem parte deste romance em particular.

Gostei bastante da leitura d'O Caderno de Maya e não descarto a hipótese de revisitar Allende e o Chile um dia destes.

Se quiserem podem encontrar aqui a sinopse e algo sobre Allende.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

2012 - Epílogo

Saudações a todos.

2012 terminou e cabe-me efetuar uma retrospeção sobre o dito, neste caso escrito...

Foi, para mim, um ano sui generis, de transformação pessoal e de auto descoberta. Passei-o mais do que o vivi. Foi importante para mim e para o meu crescimento o deserto que atravessei. Neste momento estou fora do purgatório, tentarei manter-me deste lado. Adiante!

Como consequência da minha liquefação encefálica não fui capaz de ler muitos livros embora saliente que tive muito prazer na maioria dos que li.

Descobri Allende, Julian Barnes e David Soares.
Abracei Dickens, Maugham e McCarthy.
Respirei com Paolini e Murakami.
Extasiei com Zafón.  (sempre o bom Zafón!)

O livro que mais gostei foi Marina, do nuestro hermanito. Marcante.

Na barra ali ao lado, nos livros lidos em 2012, podem encontrá-los pela ordem de preferência e não pela de leitura.

Devo-vos opinião ao Caderno da irreverente Maya e ao querido David Copperfield. A seu tempo a terão. Isto é para cá voltarem e não para ler tudo de uma vez!

De mim espero mais estabilidade que me permita ler os 48 livros aos quais me desafiei no GoodReads.

Desejo a todos vós um 2013 fantástico cheio de saúde e com muitos, muitos, muitos livros prazerosos.

Bem hajam.